A Polícia Civil remeteu ao Ministério Público dois inquéritos que apuram abusos sexuais em São Gabriel na Fronteira Oeste. Os casos devem ser encaminhados à Justiça nos próximos dias. Os crimes teriam sido cometidos por um suposto médium, em uma casa usada como centro religioso na cidade. O suspeito está preso preventivamente. A reportagem teve acesso a relatos da vítima contando como os abusos aconteceram.
Segundo uma das vítimas, os abusos aconteciam durante os rituais, com a promessa de cura e com toques nas partes íntimas. O médium também teria orientado a paciente a não procurar atendimento médico especializado. Outras mulheres que teriam sido vítimas ou foram atendidas pelo suposto médium prestaram depoimento à polícia.
O delegado Fabrício Lima Ferreira, titular da Delegacia de Polícia (DP) de São Gabriel confirmou que dois inquéritos foram instaurados. O homem foi preso em 29 de março, mas o nome do suspeito não foi divulgado.
— O primeiro registro de ocorrência aconteceu em junho de 2022 e foi feito pela própria vítima. Os fatos foram apurados, foram colhidos diversos elementos e informações que apontaram que o suspeito praticou o crime de estupro de vulnerável, e isso porque a vítima teria entre 13 e 17 anos na época dos abusos. Em março de 2023, outra vítima registrou ocorrência, relatando o mesmo modus orandi do suspeito. Ou seja, ele utilizava da fé, da crença das pessoas e abusava sexualmente delas num suposto tratamento espiritual. Também foram diversos elementos de informação que apontaram a prática criminosa pelo suspeito. Diante dos fatos foi representado pela prisão preventiva que foi definida pelo poder judiciário — diz o delegado.
Conforme o relato de uma das vítimas, hoje com 19 anos, os abusos teriam acontecido quando ela tinha 13 e 17 anos e teriam sido feitos pelo padrasto.
– Ele era meu padrasto, então sendo assim, eu ficava 15 dias morando na casa dele junto a minha mãe. Ele tinha bastante acesso a mim, então eu não sei direito te dizer a idade porque era muito pequena entre 6 e 7 anos, eu acho, quando eles começaram no relacionamento. Desde então, ele fazia parte da minha vida. Eu morei por muito tempo com ele, dentro da casa dele e com uma certa idade eu comecei a participar do Centro Espírita dele, que no caso, era o lado da casa dele. Eu comecei a ir nos passes, fazer as consultas. Eu não lembro de tudo o que ele falava comigo, mas eu tenho certeza hoje que ele tinha total acesso ao meu psicológico, sabia os meus pontos fracos, sabia algo para me derrubar e isso era certo. Ele tinha uma sala, e a gente consultava com ele, tanto as consultas normais conversadas quanto cirurgias espíritas. Eu não contava para ninguém ali porque ele sempre deixava claro que se eu contasse ele saberia de alguma maneira e como era envolvendo espíritos, óbvio que eu acreditava. Ainda mais sendo uma criança.
Em nota, Promotor de Justiça de São Gabriel, Lucas Oliveira Machado confirmou que o Ministério público (MP) está apurando o caso. Confira abaixo a nota emitida pelo órgão:
Na oportunidade em que o cumprimento, informo que a investigação do caso foi conduzida pela Delegacia de Polícia de São Gabriel, tendo a autoridade policial concluído esta investigação e remetido dois inquéritos policiais ao Ministério Público, atribuindo ao investigado a prática de diferentes formas de violência sexual contra vítimas distintas, valendo-se da condição de religioso para a prática de tais fatos.Com a investigação concluída, o Ministério Público realizará a análise de todos os elementos colhidos e deve oferecer denúncia até o fim da semana, iniciando a ação penal no Poder Judiciário.Muito embora sabido que a publicização do caso possa contribuir para que outras vítimas busquem a formalização de novos registros, tendo em vista a natureza dos delitos apurados, por ora, são as informações possíveis de serem alcançadas, notadamente até o oferecimento da denúncia pelo Ministério Público.Lucas Oliveira Machado, promotor de Justiça de São Gabriel
O advogado Bruno Seligman de Menezes, responsável pela defesa também emitiu nota, defendendo que o suposto médium responda as acusações em liberdade.
Não temos dúvidas de que todas as acusações às quais o investigado responde são inverídicas e foram feitas por pessoas que têm interesses direto em atingi-lo. Acreditamos que é plenamente possível que ele responda as acusações em liberdade, uma vez que os fatos se referem a períodos bastante antigos, não havendo qualquer contemporaneidade que justifique sua prisão cautelar. Além disso, o acusado se apresentou espontaneamente às autoridades, colaborando inteiramente com as investigações. Encerrada a investigação policial, aguardamos o posicionamento do Ministério Público a respeito do inquérito.